sábado, 17 de novembro de 2012

Diversidade divergente: poetas de agora, poetas de sempre

Depois da maravilhosa resenha de meu livro zero ponto zero, o crítico Marcos Pasche brinda-me com um artigo apresentado em congresso importantíssimo da área de Letras (a ABRALIC):

"... A leitura de três recentes poetas brasileiros contemporâneos dá provas de que não se precisa tomar o partido de nenhum extremo (principalmente porque a poesia opõe-se às estreitezas do partidarismo lógico e irrefletido), e de que é possível, sim, insurgir-se contra as redes asfixiantes da convenção e da moda que, alienada, apregoa-se anticonvencional (...) Enquanto Rodrigo Madeira busca suas bases discursivas na estética moderna, é na tradição que Daniel Mazza forja suas diretrizes. expressivas. A singularizá-los, está justamente o que lhes aproxima: a escrita infensa aos receituários atuais, que deixam a literatura mais contemporânea do que literária. (...)
A confluência de tais tendências encontra morada cativa na poesia do carioca Igor Fagundes, cujo ápice é visto (precocemente) em 'zero ponto zero' (2010), cujas epígrafes são assinadas pelo moderno Heráclito e pelo tradicional Paulo Henriques Britto. Por todo o volume, o tom preponderante é dado por uma interessantíssima comunhão entre a elegância do discurso alinhado na métrica e na rima e a meninice da ausência de pontos e da onipresença das iniciais minúsculas, que levam as palavras para arejarem os pés pisando um mato qualquer. Mas cada passo é pensado meticulosamente, sendo todo o conjunto um incessante metatexto: palco no qual os números são libertados do pragmatismo dos cálculos para bailarem, já pássaros, ao vento das metáforas.
(...) Isso nem de longe caracteriza "zero ponto zero" como um livro tematizado pelo encontro festivo de fonemas e algarismos. Ao fundo, o volume pertence à linhagem das obras de arte (...) cuja pedagogia pauta-se, sem didatismos, pela reordenação das formas de interpretar a realidade. Daí que ao mesmo tempo em que a aritmética é incluída no discurso poético para ganhar novo matiz, ela também é alvo de repulsa desse mesmo, pois a extrema matematização da vida contemporânea tem desorientado o homem, que toma sete lições para dar nove passos a lugar algum. Nesse sentido, potencializa-se o caráter irônico desta poética, que primeiramente traz para si a ideologia da lógica; posteriormente, problematiza-se tal tendência no que tange à própria figuração da obra – “de um livro quase todo em formas fixas / espera-se o equilíbrio, a simetria / e como se negasse a própria sina / aponta para o oposto dessa trilha”, até chegar ao uso das próprias armas do triunfante para enfim desqualificá-lo: “e a vida morre quando se dá conta / em matemática, tão certa, falha” (Idem, p. +13).
Fiel à sua vocação antirracionalista, a poesia matemática de Igor Fagundes contradiz-se a cada lance. O pior da arte contemporânea é manter uma concepção encontrada tanto no pior vanguardismo quanto no pior tradicionalismo: a crença em sua total suficiência e a consequente defesa da abominação do que lhe é diferente. Em Igor, tal ideologia separatista cede vez a uma sensata separação do vício e da virtude em um mesmo fenômeno. Daí ser rechaçada a febre numérica com que se quer a tudo maquinar, mas sem que disso se faça um exercício exclusivo de subtração: “amor à palavra que, em números, funda / bem mais que a medida: sua própria loucura”.
Ver na íntegra em: http://www.abralic.org.br/anais/cong2011/AnaisOnline/resumos/TC0758-1.pdf
 

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Para uma sexyta-feira, três poemas eróticos de meu livro zero ponto zero. E eu começo pelo próprio número "três", na alegria trágica de Eros quando e porquanto poético, ontológico.



três

no triângulo amoroso esqueça o teorema:
jamais a soma dos quadrados dos catetos
será o quadrado da rainha hipotenusa

se em um casal a relação já tem problemas
quem saberá de uma paixão em que um terceiro
vértice entrega-se à disputa das bermudas

também oscila em duelo e dúvida a existência
onde a terceira via de outras é o segredo
para uma vida que, de par em par, não muda

como na orgia, em que o sucesso é consequência
do número ímpar, a impedir que dois parceiros
se colem, casem, melem – matem – a suruba

me entrego ao gozo de viver além de esquemas
sequer divido-me em metades ante o espelho
uma terceira imagem, nele afim, masturba-me

erótico é o três, me roça, me desvenda
enquanto no meu duplo brocho, insatisfeito 
e tudo enruga: eu quero mesmo o que confunda



soneto da fugacidade



no impulso te possuo até que, dentro,
inflame o que nos infla enquanto entranho
e extreme-se em teu vão no qual me assanho
se me possuis quando és de mim o centro

quero vergar-me até que verta um estro
em cada lastro destes lábios grandes
em cujos brados líquidos comandes
a conversão de um falo gauche em destro

e assim, quando não mais erguido um muro
quem sabe, fusos, nos lacemos livres
quem sabe, fluidos, nos lancemos langues

o gozo vire estátua de algum Louvre
e finja-se imortal: o sêmen, sangue
deste amor, infinito enquanto duro




pequena morte




cerrar os olhos para ver o que
se passa quando a língua passa à boca
de uma outra língua que, por tara, avança
naquela que, devassa, ao beijo lança-se
lembrando a dança, quando o corpo, inteiro
integra um a um de seus sentidos
e houvesse neste espaço exíguo, íntimo
a combustão do tato com algum cheiro
sabor vermelho, a sussurrar no ouvido
um tal sentido sexto, ou o hino tímido
tinido nas salivas que se tocam
como se liras no arco das arcadas
dentárias, onde agudo e grave roça
o timbre que as gengivas esparramam
por baixo destas línguas tão barítonas
que arranham a garganta ora soprana
e arrancam de um tenor-palato o drama
de arremessar violinos rumo ao céu
da boca e em cada bruma, o violoncelo
a soçobrar, em chamas, um soluço
o hiato-nuvem onde um sol expulso
retorna sempre que os clarões noturnos
entornam no beijar o acorde mudo:
tornado o lábio chave deste túnel
por onde a vida tenta gerar frutos
e no tumulto se transmuda em surtos
de um curso vário, cujo início é o vulto
da viagem provisória ao fim do mundo

domingo, 11 de novembro de 2012

A indagação existencial de Igor Fagundes - por Izacyl Guimarães Ferreira



A indagação existencial de Igor Fagundes

 

Izacyl Guimarães Ferreira [1]

 (Publicado originalmente no periódico Revista Brasileira, da Academia Brasileira de Letras)


No ano em que escrevo, 2010, Igor Fagundes é um poeta jovem, abaixo dos 30. Com formação em Comunicação Social, mestrado e doutorado em Poética, além de estudioso de Filosofia e Prática Teatral, tem três livros de poesia autorizada, após inúmeros prêmios e uma estreia quando adolescente, em 2000, que elevaria o número de publicações neste gênero para quatro, se ele mesmo não rejeitasse a primeira. A filosofia e a juventude são dados mais que anedóticos: episódicos – um, permanente; o outro, transitório – mas que no momento são relevantes para a abordagem de seus textos.

Logo que abertos, seus três livros mostram uma preocupação com as estruturas de uma poética de algum modo contestatória nos títulos ousados, corroboradas em seguida pelas divisões em partes, como a demonstrar seu domínio, quer do conteúdo, quer da forma, numa disposição quase didática dos temas.

O livro Sete mil tijolos e uma parede inacabada é sua estreia autorizada em 2004, pela Editora da Palavra. Na sequência, ganha em 2005 o IV Prêmio Literário Livraria Asabeça com o livro por uma gênese do horizonte, publicado no ano seguinte pela Scortecci Editora. Em 2010, a Editora Multifoco publica zero ponto zero, escrito durante poucos meses de 2007.

Os dados extra-poemas podem parecer supérfluos para o leitor, mas não serão para o crítico ou comentador, pois exibem a vivência do poeta, configuram sua personalidade voltada para a arte e o pensamento e, no caso em questão, ajudam a entender alguns traços importantes de sua obra. Em Igor Fagundes, esta formação e as versáteis experiências dão a ver uma procura de meios expressivos e mais: uma procura de significação do mundo.

Fiquemos, por ora, na forma, e não por acaso. Como se verá, a forma, nesta poesia rigorosa, sem aprisionar o pensamento, delineia na contenção do(s) verso(s) toda a especulação de um poeta em pleno controle e juízo de seu verbo.

Igor Fagundes domina o ritmo e sua metaforização é dinâmica. É mesmo vibrante e surpreende pela variedade e pela riqueza vocabular, considerando-se sobretudo a juventude do autor e pondo à mostra concentração e maturidade raras até em poetas mais vividos.

Outro dado prévio é o das epígrafes, nunca inúteis, pois em geral preludiam o teor da obra, senão a motivação, alguma referência essencial ou amparo elucidativo.

Se no primeiro livro há ainda palavras com iniciais maiúsculas, a partir do segundo elas são abandonadas em favor da grafia igualitária das minúsculas e da quase ausência de pontuação, algo à maneira de certas vanguardas e tão marcante no americano e.e.cummings. Creio que tal tendência – muito do século XX, embora lhe seja anterior e algo gasta após Mallarmé, assim como as maiúsculas abrindo os versos todos, tão ao gosto dos românticos, parnasianos e simbolistas – poderá ser abandonada em benefício da leitura, digamos, “normal”. Pois o recurso à multiplicidade da leitura, sua riqueza e ambiguidade, permitidas pela ausência de pontuação e pelo uso de minúsculas pareceria prática apenas acessória à fruição do texto. Mas isso, podendo parecer trivial ou secundário, em Igor Fagundes é parte de uma poética aberta, consciente e ciente do seu papel a desempenhar: contrapor-se à dicção tradicional sem perder o diálogo com ela, pois o que tem a dizer requer uma independência, se mantido o essencial do dizer poético: ritmo, oposição à racionalidade da prosa, inventividade de linguagem e imagética. Por certo, isso será dito sem demérito algum para o autor. Ao contrário. Porque, podendo tratar-se de característica de época, mais que de estilo pessoal, tem neste poeta outra e mais alta função: a de ter para um “assunto” novo – ou para um tratamento novo de assunto – uma “forma” nova, dando curso igualmente novo à totalidade da dicção.

Mas abordemos esta poesia por outros e mais amplos aspectos. A obra de Igor Fagundes não é uma aventura. Em poucos anos, já mereceu o reconhecimento de leitores gabaritados, poetas como ele – do metiê, portanto –, tão capazes ou mais que os críticos de ofício para penetrar a gênese dos textos e, se experientes, como é o caso de alguns, distinguir originalidades, informação adquirida, leituras absorvidas, inserção na cultura.

O próprio poeta admite o tônus filosófico de seus poemas. A imersão em Heráclito, visível desde as epígrafes, e em Martin Heidegger, intérprete do pensamento grego, está à mostra em citações, referências e insinuações. Mas o estudioso de Filosofia vai além da indagação socrática, base universal do pensamento do ocidente, da magia pré-socrática tão perceptível numa estética do fragmento, para enveredar na procura contemporânea de sentidos nas artes e na vida diária. E, se tal procura é “séria” em grande parte dos textos, por vezes adere no terceiro livro à ironia e até a uma desabrida galhofa.

De todo modo, sofrido e sério, ou irônico, ou só banhado de humor drummondiano eventualmente, seus textos já estão libertos de qualquer epigonismo, parecendo ultrapassada sua fase de aprendizado. Embora mostrem origens e leituras, como todo poeta bem alimentado, os livros de Igor Fagundes se sustentam eretos e sós.

O poeta e crítico Antonio Carlos Secchin, da Academia Brasileira de Letras (ABL), diz ver em Igor Fagundes uma das maiores “inteligências poéticas” de nossa literatura contemporânea e esse juízo crítico vem acompanhado de numerosos outros aplausos, muito merecidos, embora sejam poucos, além dos prefácios, os estudos de sua poética.

O entusiasmo dessa crítica tem a ver com aspectos fundamentais do poeta e penetra o âmago do conteúdo dos textos, embora sem análise mais minuciosa da feitura destes, como faria um Amado Alonso, por exemplo, quando exorcizou os demônios da criação de Pablo Neruda. Foram já reconhecidas sua sabedoria formal e técnica, bem como sua imagética exuberante. Caberá lermos, aqui, alguns versos, antes de salientarmos o que vê a crítica e de tentarmos situar o pensamento e a estética deste fascinante verse maker, dir-se-ia de seu bem lido Ezra Pound.

A educação pela parede quer-se exata:
cada tijolo é uma escolha e uma alquimia.
Na casa o espaço imita a pedra cabralina
em dura guerra contra a dor que entranha a sala.
...................................................................

No aprendizado do concreto no abstrato,
além de muros pelas folhas e objetos,
outro se oferta, grita em nós, aqui se cala:
por dentro, eterna, uma parede nos amarra.

Em outro poema:

E a parede, que era antes símbolo 
do que em nós se mantém erguido,
acaba signo do que divide os corpos
em rumos de deus e do diabo.

Parede que une e divide, multiplica e esconde. E limita. E defende. E revela. Como a cebola: “por cima da pele/ outra pele/ por baixo / mil cascas/ na casca / que desvenda / a cebola / esta máscara / de quem a desvela // é a cebola o poema / esta tensa nudez / nunca nua”. Lemos ainda: “Poesia // é quando a folha engravida.” E, entre João Cabral e Chico Buarque, Drummond e uma lista de poetas lidos, todos citados no poema “Herança”, a pergunta: “em que estante/ ficou perdida minha vida?”.

Consciência de forma e criatividade linguística, além de diálogo intertextual, viu Secchin onde o poeta e ensaísta Marco Lucchesi enxergou também “uma estranha alegria de viver”. Foi sem dúvida uma estreia madura; de maturidade precoce, viram todos os seus críticos. Porém, se este primeiro livro jamais esconde filiações e perplexidades, se já revela o bom domínio formal e usa ainda as maiúsculas, é estreia, forte, mas não reveladora da explosão artística a vir no segundo livro, por uma gênese do horizonte, onde a estruturação é mais sólida; onde há menos experimentações e aparece de vez (por ora) o estilo dominante de oferecer leituras múltiplas na escassa pontuação, com o emprego quase estrito das minúsculas, com os recursos expressivos provenientes da filosofia e com os parênteses propondo ora dúbios e obscuros, ora mais claros os significados.

Toda grande poesia é exigente e a de Igor Fagundes é ainda particularmente instigante e capaz de perturbar mentes cartesianas, embora sua aficção pelo pensamento subjacente – quando não explícito – não facilite a leitura desavisada. Não se trata do velho hermetismo, pois o poeta se vê com lucidez e, quer quando em fala direta, quer quando – “cebola” – se desdobra em imagens ou em alusões, não tem a intenção de esconder-se, mas de revelar-se melhor. E esse inescapável teor “filosófico”, isto é, pensante, perscrutador de sentidos, não turva a linhagem do gênero. O que faz é sempre poesia, mesmo quando aqui e ali pareça anedótica – nas acepções de factual e até de humor. Mesmo quando o miolo do poema se tinge da tal indagação de cunho “filosófico”.

Ao sabermos que o poeta tem intimidade com a filosofia não podemos deixar de ler os poemas sem vermos um pensamento questionador e debatedor nos versos. Exigência da alta poesia, tal atitude limita o espectro de seus leitores, pois creio, na eventual popularidade de sua obra, em uma poesia para poetas e/ou leitores cultos, senão acostumados com a vertente cerebral à qual esta pertence. Algo de zero ponto zero:

ok, você venceu: há, sim, uma ordem
intrínseca ao correr, vagar das páginas
de modo que uma dor não me incomode:
aquela em que o caótico refrata-me

............................................................

se encaixo a vida em plano de Descartes
(na horizontal a vertical em vértice)
não é por força da razão: por arte?

suspeite sempre do prazer estético:
Apolo fere-me no mito de Hades
enquanto o dionisíaco é mais ético

No poema seguinte:

coubesse a trajetória na parábola
inscrita em gráficos, mediante escalas
os dias seguiriam como um y
na busca por um x e por um triz
as noites não despertam programadas

Leia-se, ainda, o poema “zero ponto” e “ponto zero”, ambos compondo o título do livro, zero ponto zero, para ver-se o tom constante de pensamento pesquisador (pensa-se por vezes em Fernando Pessoa). Em Igor Fagundes, a poesia nunca é trivial, jogo floral, sequer quando brinca, e o faz bastante. Tudo nele procura sentidos, demonstrações, desdobramentos.

No segundo livro, por uma gênese do horizonte, o poema final é quase uma poética, seguida de perto ao longo de sua poesia. Após enumerar tarefas de domadores, trapezistas, mágicos e outros artistas de espetáculos, “no circo-poema onde se espraia a travessia”, conclui:

– por esses o escrever não se assemelha a dardos
e à margem do funesto dança em euforia
o artista gêmeo do que em vida sempre vibra

O poema se chama “criação” e em muitos aspectos de construção e linguagem ilustra essa poética de risco e de invenção, carregada de signos, exigente quando deixa de lado o humour e navega por águas afluentes do pensamento quase abstrato, se não estivesse já concretizado pela palavra poética.

A construção deste segundo livro tem rigores de arquitetura ou de engenharia, com as idas e vindas de temas e auto-citações, abrindo com um poema a aludir ao título e girando em torno de afogados, como se o horizonte (interpreto eu) fosse o limite ou a esperança num mar absurdo ou inóspito de naufrágios. “Mistérios do horizonte”, diz bem o prefaciador, Latuf Isaias Mucci, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), ao falar dos “poemas abissais” frente à “possível miragem”, dedicada “aos que, afogados no amor, salvam vidas”.

Se vou e volto de um livro a outro é porque os três estão ligados pelo que chamei de poética de risco. Igor Fagundes não teme os riscos de eventuais obscuridades, creio eu que por crer nas virtualidades elucidadoras de seus versos, esperando que o acostumar-se com a linguagem ora cifrada, ora quase prosaica de sua criação, conquiste o leitor. Lançado nos labirintos das imagens numa sintaxe clara, numa dicção precisa e contundente, o leitor, atento, não se perde, mesmo quando, aqui e ali, o que entende possa ser distinto do que terá intencionado o autor. Graças à magia de seu verbo, mais apurada a cada livro, até enfrentar as dificuldades e as romper, tal como se verá no último poema de zero ponto zero, “sobre o ponteiro a âncora”.

A filosofia e a matemática são parte visceral de seu afazer poético no livro zero ponto zero. Escreve em “pele dural”:

nunca me constrangeu a matemática
de uns tempos para cá, tem-me ofendido

com uma clareza estranha ao meu compasso
sem centros não desenha nem um círculo

constrange-me essa forma sem matéria:
os números não sei pelos sentidos

quando penso no vinho, qual molécula
(não) vem à língua? só o sabor do (ins)tinto

Mais adiante, no mesmo poema:

esta arte exata me maltrata os óculos
............................................................
o cálculo desponta e me desaba
e a vida morre quando se dá conta
em matemática, tão certa, falha

E encerra com riso:

se periódica, a propor a dízima
seu filho feio, aberração mais nítida

quando de si a operação for vítima
do erro de meu caro anestesista

Não será exagero dizer que Igor Fagundes trabalha com intenções de totalidades de temas e de
linguagem. Pensamento e música, sentido e som se buscam, como ocorre em toda alta poesia. Se há, e há obscuridades em Igor Fagundes, não é porque não saiba ser claro. Ele sabe. É porque sua poesia navega por águas agitadas, uma agitação de procura de interpretação do mundo e de cristalização de uma dicção em processo, como se espera de um poeta de peso, jamais pronto e perfeito como um círculo.

Em depoimento, Igor cita Aristóteles ao dizer que a filosofia e a poesia nascem do espanto. Lembra e vê também a noção de criação – de poiesis – em seu sentido amplo, como a transmutação da própria physis. Tal abordagem deste “herdeiro de Alberto Caeiro” explica o transitar de uma a outra forma de ver e narrar o mundo, cara e coroa da moeda da linguagem, “negando por afirmação e afirmando por negação”, numa dialética vital. Lembremos: “poetare deinde filosofare”...

Nessa dialética posta a nu diante de nós, o poeta vem de uma contenção formal a balizar todos
os poemas (ou quase) até o rompimento das paredes, até o mergulho no oceano dos afogamentos e naufrágios. Como se o verso fosse pouco – algo assim, como já nos disse Augusto dos Anjos batalhando “contra o mulambo da língua paralítica” –, com a ressalva: em Igor Fagundes nada vai no rumo da paralisia. Há sempre movimento no labirinto do minotauro, à mostra na capa de zero ponto zero: “o jeito é percorrer, correr perigo / no curso em que o discurso em labirinto / não tem começo, término nem bula / eu mesmo na ilusão de dar-lhe a súmula”.

Tanto é assim, e disso tem plena consciência o poeta, que o livro terminará com um poema aberto e esfacelado, algo à maneira da constelação mallarmaica, uma vez rompidas as paredes do verso.

Lucidez na tormenta nos exibe uma poesia do pensamento, entre a busca (e renúncia concomitante) de equações (de álgebra e filosofia) explanadoras e a beleza da exposição do mundo pela poesia. Não por acaso, a forma de Igor Fagundes varia e há os fragmentos dos aforismos aqui e ali, ao lado ou junto, ou contra a formatação impositiva do verso. Pensamento pensando-se, observação observando-se, jogo de espelhos. Uma compulsão de aclarar-se, dar voltas em torno para cristalizar a indagação no verso, gaiola aberta para o pássaro pensador, utilizando a formatação e o ritmo da poesia para aprisionar a indagação, conter o fluxo especulativo.

Mas atenção: Igor Fagundes resiste à tida como fria especulação filosófica (mas será mesmo fria? Como ver frieza em Nietzsche, Heidegger ou Unamuno?) e se aquece no calor da poesia: uma poesia cheia de vida observada e usufruída, jamais estática, pensando-se, e sentindo-se, e fazendo-se ao sol de um meio-dia vigoroso, com aquela “lucidez do sobressalto” construtor de João Cabral.

O poeta sabe: filosofar é perguntar. O poeta sabe: poetar é dizer. E o poeta demiurgo vai

               rumo ao lugar em que tudo é barco
                                            ao redor de si
                                    a girar                        
                         sobre as curvas               
             de um imenso relógio


[1] Poeta, ensaísta, crítico literário e detentor de diversos prêmios de literatura.

domingo, 4 de novembro de 2012

ZERO PONTO ZERO: UM MANUAL ?!


Publicado em 2010, meu livro de poemas zero ponto zero se constrói (e se desconstrói) a partir de uma tensão poética criada pelo universo da própria matemática, das proposições da Lógica, com o intuito, afinal, de flagrar os paradoxos, as sobras, os vãos de todo discurso que pretenda exato, claro e ordenado o real e o humano.

Neste sentido, subverto a numeração tradicional das páginas, instaurando uma página 0 no centro do livro. Seguindo para frente (perpassando as folhas da esquerda para a direita), vou gerando páginas +1, +2, +3, até a página + oo. Chego, inclusive, a tornar os próprios algarismos (0, 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9) os próprios temas e títulos dos poemas inscritos ou escritos nas páginas homônimas. Andando para trás, quer dizer, folheando o livro a partir da página 0, da direita para a esquerda) gero páginas - 1, -2, -3 até - oo (o que significa que o livro começa mesma na página -oo e termina na página + oo). No entanto, como tudo obedece a um rigoroso encadeamento, que trama, em verdade, sua própria implosão (ou explosão), a sequência dos poemas é pensada para as diversas orientações de leitura. O poema que abre o livro, o poema que o fecha, o poema da página zero, o poema na página + oo, o modo como cada texto emerge antes ou após do outro, tudo é pensado - de fato, é esse próprio gesto de pensar a "ordem" que gera a demanda de escrita de cada poema. No entanto, pela ironia que tange toda a obra, a todo momento estou questionando tais imperativos e conduzo o leitor a um afundamento naquilo mesmo em que já me veria afundado: no abismo, num labirinto.

Poema de abertura, "manual" seria irônico desde o título. Afinal, como explicar - dar as senhas de acesso - a um livro de poesia? Como antecipar a experiência poética através de um manual? Tornando ele também poema, isto é, condução para a desordem


MANUAL



primeiro cerre as pálpebras e adentre
o escuro onde repousam coisas táteis:
o verbo, por exemplo, consistente
com rosto oblíquo e olhar indevassável
perfume afrodisíaco, respire-o
e pire na batata, e siga em frente
na viagem com destino à maionese
quem sabe alcance a ascese, de soslaio

depois tire os sapatos, imagine
pisar com pés descalços solo fértil
talvez a rima aqui lhe soe um tique
nervoso, quando quer, em suma, o inverso:
o sumo da harmonia do que existe
os sons bem compassados do universo
decerto que em palavra ecoa um ritmo
convido-lhe a cantá-la no reverso

se o livro já começa do infinito
suponha que termine em ponto zero
surpreenda-se, na página, um algarismo
é negativo e logo veja: não é certo
que o fim seja no zero (o nulo, o meio?
o centro de onde surge cada ponto
e o positivo encontra-se além dele
– no jogo dos contrários fique tonto)

caminhe para um lado e para um outro
e chegue, nessa errância, ao uno, ao mesmo


esqueça o raciocínio, que dá rolo
ao perguntar de tudo a causa e o efeito
o que vem antes, a galinha ou o ovo
o zero ou o infinito – existe um eixo?
como se fôssemos nas setas forças
centrípetas, centrífugas, qual jeito?

o jeito é percorrer, correr perigo
no curso em que o discurso em labirinto
não tem começo, término, nem bula
eu mesmo na ilusão de dar-lhe a súmula
de um livro e lhe roguei ser cego a ver
lhe rogo agora uma surdez ao ler
o poema-guia, e brinque de perder-se
nas retas – curvas – do desentender-se



PLANO CARTESIANO



ok, você venceu: há sim uma ordem
intrínseca ao correr, vagar das páginas
de modo que uma dor não me incomode:
aquela em que o caótico refrata-me

duvide, mas odeio matemática
e sei desordenado o humano mote
– embora assuma bela a face exata
alegra-me viver contraditório

se encaixo a vida em plano de Descartes
(na horizontal a vertical em vértice)
não é por força da razão: por arte?

suspeite sempre do prazer estético
– Apolo fere-me no mito de Hades
enquanto o dionisíaco é mais ético
 


FÓRMULA DE BÁSKARA



coubesse a trajetória na parábola
inscrita em gráficos, mediante escalas
os dias seguiriam como um y
na busca pelo x e por um triz
as noites não despertam programadas

coubesse a tarde dentro deste achado:
no grau segundo da equação, em báskara
na fórmula em que o delta é quase a chave
retire-lhe a raiz pra mais, pro menos
e o menos b eleve ao seu quadrado
por b com dupla vez divida o senso

coubesse o tempo em cálculo sem lapso
jamais teríamos do amor um déficit
um saldo devedor, mas superávit
da margem de erros somos grandes mestres
pequena a porcentagem de milagres
que escrevem nunca em linha torta o certo
como se em mãos de deus a régua e o esquadro




ASTRID CABRAL COMENTA "ZERO PONTO ZERO", DE IGOR FAGUNDES



Meu querido Igor

Na primeira leitura, entrecortada de pausas, dei-me conta de alguns aspectos fundamentais no seu livro: acentuado pendor construtivo, o que o irmana a João Cabral de Melo Neto, sem que isso configure qualquer epigonismo. Seu cerebralismo é muito pessoal. Brota de cintilante inteligência e nunca de atitude de reverência servil ou insegurança de jovem. Ninguém ousaria negar sua extraordinária maturidade.
Alguns poemas me pareceram herméticos, não à moda surrealista e sim em função de um envolvimento conceitual denso. Como ressaltou Diego Braga, em agudo prefácio, você elaborou "ensaio de teoria poética". Tudo que vem de você é muito profundo e gera poemas complexos, fortes e originais, capazes de nos sacudir. Sua dicção promove sábia aliança entre a contemporaneidade e a tradição poética devidamente assimilada. Qualquer poema do seu livro exibe rigoroso apuro, variedade e riqueza técnica.
Gostei muito dos poemas eróticos, autênticos e sutis. Idem da requintada ironia presente em um sem número de composições. O mundo urbano contemporâneo e o mundo literário sofrem contundente análise sob sua visão crítica. Reli com saudade o poema “Copacabana”. Também li com grande deleite os poemas “Destinação”, “Na cama”, “Dois”, “Quinze”, “Resenha”, “Conferência”, “Lavra”, “O fim da palavra”, “Palavrão”, “Vale-compras”, “Shopping” e “Romântico”. Pretendo retornar, com o devido vagar, à leitura desse zero nada zero por seu inerente valor literário.
Aqui fica meu carinho e a alegria de reconhecer em você um Senhor Poeta.

Astrid Cabral

sábado, 3 de novembro de 2012

A MATEMATIZAÇÃO DESMATEMATIZENTE: Sobre o livro de poemas ZERO PONTO ZERO, de Igor Fagundes



A matematização desmatematizante
Livro de Igor Fagundes é uma manifestação de alta poesia

Marcos Pasche
Professor, crítico literário
e doutorando em Literatura Brasileira - UFRJ
(Publicado originalmente como "A poesia do mais e menos"
em 25/08/10, no Caderno Ideias do Jornal do Brasil)

            Talvez um título mais justo a este texto fosse “Nasce um grande poeta”, tal é a profundidade do novo livro de Igor Fagundes, zero ponto zero. Se posto ao lado da tendência mais comum na recente poesia brasileira, ele sobressairá porque desfaz a falha polarização que segrega lirismo e cerebralismo (como se um poema lírico fosse elaborado nos pés); se posto ao lado da tradição dos poetas maiores, no Brasil e no Ocidente, ele achará um ambiente cativo porque colhe, com engenho e emoção, o que é mais alardeado em nosso tempo para desmerecer o objeto do alarde, fazendo-se dentro e fora da época; se posto isolado, o percurso até aqui efetuado por sua obra dota-o de luz candente, porque é imensa a qualidade que distingue este livro.
           Um fator a dar maior solidez a zero ponto zero é a exibição de um poeta senhor de sua voz, apesar das múltiplas falas. Confluindo o rigor da técnica com a ausência de maiúsculas, a erudição com temas corriqueiros, Igor Fagundes é tradicional sem ser tradicionalista; é moderno sem ser modernista (já nas epígrafes, assinadas por Heráclito e Paulo Henriques Britto). Absurdo? Sim e não. Trata-se de um poeta, e a manifestar em seu livro vigorosa captação crítica da realidade numa forma de escrita originalíssima.
            Diariamente nos é recomendado um modelo de vida sem o qual não se chega à felicidade (sinônimo de empresariado ou alto cargo público). Faz-se crer que a existência é passível de um encadeamento lógico dentro do qual as causas e os efeitos têm infalível efetivação. Um exemplo caricato, por isso vivo, está no filme Pequena Miss Sunshine, de Jonathan Dayton e Valerie Faris, no qual Richard, pai da protagonista, conduz suas ações a partir do “método dos nove passos”, na verdade nove mandamentos de auto-ajuda e/ou de gestão empresarial. Ou seja, este é um tempo do furor contabilista, do apogeu do número.
            Em face disso, o livro de Igor Fagundes realiza, do início ao fim, um expressivo exercício irônico, porque nele tudo obedece a uma rigorosa disposição matemática: “ok, você venceu: há sim uma ordem / intrínseca ao correr, vagar das páginas”, diz “plano cartesiano”. A maioria dos sessenta e cinco textos é numerada de -31 a +31, tendo como eixo o “ponto zero”, o que subverte a numeração convencional dos livros. O primeiro e o último texto evidenciam a unidade circular da obra, visto serem identificados com o símbolo do infinito (apondo-se ao primeiro o sinal negativo e ao primeiro, o positivo).
            Apesar do corpo numérico, a razão de ser do livro é denunciar e rejeitar a enganosa e danosa algebrização do viver, seja no âmbito específico do livro – “de um livro quase todo em formas fixas / espera-se o equilíbrio, a simetria / e como se negasse a própria sina / aponta para o oposto dessa trilha” –, no do sujeito – “calculados de acertos / meus pecados: / erro-me assim / tão exato” – e no da existência, em sentido mais amplo – “e a vida morre quando se dá conta / em matemática, tão certa, falha”.   
            Ao lado da ironia (aqui entendida em seu sentido original – “questionamento”), destaca-se uma atividade metalinguística que por toda a extensão do livro reflete acerca de sua natureza, sem nunca cair na gratuidade teórica. Na seção “positiva” da peça (em que os textos recebem sinal de mais), os poemas-algarismos de zero a nove têm como tema o próprio número que os indica. E um aspecto da grandeza de zero ponto zero (ao lado de sua aguda cosmovisão) é a extrema coesão de todos os seus fatores em todas as suas partes; dessa forma, estes poemas não apenas falam sobre os números intituladores. Cria-se com eles um pano de fundo para que o já dito torne-se inédito, como nesta belíssima passagem de “dois”: “não à preguiça de pensar dicotomias / como se tudo fosse antônimo e simplista // (...) sim ao limite em que começa e não termina / a comunhão das coisas, gentes, como rimas //  sim ao casal, se o amor dos pares chega ao ímpar / ao singular plural e ao filho em que culmina // sim ao que é não, se a partir dele, a vida afirma-se / e em cada enjambement a morte em verso adia-se”.
            Essa poética impactante, que se poderia classificar como “de peso”, quebra sucessivamente qualquer aparência de maniqueísmo ou de monotonia. Mas entre as investidas de envergadura teórica, presentifica a leveza de um amor adolescente (o que se soma à negação da vida em aritmético regresso) no texto “romântico”, esse termo de baixo calão para a poesia contemporânea: “curta seu love, tire uma casquinha / amar é sair junto, ao cine e após / tomar um ice cream numa pracinha / e nele derreter-se, ao sol, e a sós”.
            Nasce, portanto, um grande poeta, furando o asfalto da hegemonia bancária e a esterilidade da voga literária. Um poeta que entre céu e inferno, prefere o zero, esse número vazio e repleto do eterno.