Diversidade divergente: poetas de agora, poetas de sempre
Depois
da maravilhosa resenha de meu livro zero ponto zero, o crítico Marcos Pasche
brinda-me com um artigo apresentado em congresso importantíssimo da área
de Letras (a ABRALIC):
"... A leitura de três recentes poetas
brasileiros contemporâneos dá provas de que não se precisa tomar o
partido de nenhum extremo (principalmente porque a poesia opõe-se às
estreitezas do partidarismo lógico e irrefletido), e de que é possível,
sim, insurgir-se contra as redes asfixiantes da convenção e da moda que,
alienada, apregoa-se anticonvencional (...) Enquanto Rodrigo Madeira
busca suas bases discursivas na estética moderna, é na tradição que
Daniel Mazza forja suas diretrizes. expressivas. A singularizá-los, está
justamente o que lhes aproxima: a escrita infensa aos receituários
atuais, que deixam a literatura mais contemporânea do que literária.
(...)
A confluência de tais tendências encontra morada cativa na poesia do carioca Igor Fagundes, cujo ápice é visto (precocemente) em 'zero ponto zero'
(2010), cujas epígrafes são assinadas pelo moderno Heráclito e pelo
tradicional Paulo Henriques Britto. Por todo o volume, o tom
preponderante é dado por uma interessantíssima comunhão entre a
elegância do discurso alinhado na métrica e na rima e a meninice da
ausência de pontos e da onipresença das iniciais minúsculas, que levam
as palavras para arejarem os pés pisando um mato qualquer. Mas cada
passo é pensado meticulosamente, sendo todo o conjunto um incessante
metatexto: palco no qual os números são libertados do pragmatismo dos
cálculos para bailarem, já pássaros, ao vento das metáforas.
(...)
Isso nem de longe caracteriza "zero ponto zero" como um livro tematizado
pelo encontro festivo de fonemas e algarismos. Ao fundo, o volume
pertence à linhagem das obras de arte (...) cuja pedagogia pauta-se, sem
didatismos, pela reordenação das formas de interpretar a realidade. Daí
que ao mesmo tempo em que a aritmética é incluída no discurso poético
para ganhar novo matiz, ela também é alvo de repulsa desse mesmo, pois a
extrema matematização da vida contemporânea tem desorientado o homem,
que toma sete lições para dar nove passos a lugar algum. Nesse sentido,
potencializa-se o caráter irônico desta poética, que primeiramente traz
para si a ideologia da lógica; posteriormente, problematiza-se tal
tendência no que tange à própria figuração da obra – “de um livro quase
todo em formas fixas / espera-se o equilíbrio, a simetria / e como se
negasse a própria sina / aponta para o oposto dessa trilha”, até chegar
ao uso das próprias armas do triunfante para enfim desqualificá-lo: “e a
vida morre quando se dá conta / em matemática, tão certa, falha” (Idem,
p. +13).
Fiel à sua vocação antirracionalista, a poesia matemática de Igor Fagundes contradiz-se a cada lance. O pior da arte contemporânea é manter uma concepção encontrada tanto no pior vanguardismo quanto no pior tradicionalismo: a
crença em sua total suficiência e a consequente defesa da abominação do
que lhe é diferente. Em Igor, tal ideologia separatista cede vez a uma
sensata separação do vício e da virtude em um mesmo fenômeno. Daí ser
rechaçada a febre numérica com que se quer a tudo maquinar, mas sem que
disso se faça um exercício exclusivo de subtração: “amor à palavra que,
em números, funda / bem mais que a medida: sua própria loucura”.
Ver na íntegra em: http://www.abralic.org.br/anais/cong2011/AnaisOnline/resumos/TC0758-1.pdf
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