sábado, 17 de novembro de 2012

Diversidade divergente: poetas de agora, poetas de sempre

Depois da maravilhosa resenha de meu livro zero ponto zero, o crítico Marcos Pasche brinda-me com um artigo apresentado em congresso importantíssimo da área de Letras (a ABRALIC):

"... A leitura de três recentes poetas brasileiros contemporâneos dá provas de que não se precisa tomar o partido de nenhum extremo (principalmente porque a poesia opõe-se às estreitezas do partidarismo lógico e irrefletido), e de que é possível, sim, insurgir-se contra as redes asfixiantes da convenção e da moda que, alienada, apregoa-se anticonvencional (...) Enquanto Rodrigo Madeira busca suas bases discursivas na estética moderna, é na tradição que Daniel Mazza forja suas diretrizes. expressivas. A singularizá-los, está justamente o que lhes aproxima: a escrita infensa aos receituários atuais, que deixam a literatura mais contemporânea do que literária. (...)
A confluência de tais tendências encontra morada cativa na poesia do carioca Igor Fagundes, cujo ápice é visto (precocemente) em 'zero ponto zero' (2010), cujas epígrafes são assinadas pelo moderno Heráclito e pelo tradicional Paulo Henriques Britto. Por todo o volume, o tom preponderante é dado por uma interessantíssima comunhão entre a elegância do discurso alinhado na métrica e na rima e a meninice da ausência de pontos e da onipresença das iniciais minúsculas, que levam as palavras para arejarem os pés pisando um mato qualquer. Mas cada passo é pensado meticulosamente, sendo todo o conjunto um incessante metatexto: palco no qual os números são libertados do pragmatismo dos cálculos para bailarem, já pássaros, ao vento das metáforas.
(...) Isso nem de longe caracteriza "zero ponto zero" como um livro tematizado pelo encontro festivo de fonemas e algarismos. Ao fundo, o volume pertence à linhagem das obras de arte (...) cuja pedagogia pauta-se, sem didatismos, pela reordenação das formas de interpretar a realidade. Daí que ao mesmo tempo em que a aritmética é incluída no discurso poético para ganhar novo matiz, ela também é alvo de repulsa desse mesmo, pois a extrema matematização da vida contemporânea tem desorientado o homem, que toma sete lições para dar nove passos a lugar algum. Nesse sentido, potencializa-se o caráter irônico desta poética, que primeiramente traz para si a ideologia da lógica; posteriormente, problematiza-se tal tendência no que tange à própria figuração da obra – “de um livro quase todo em formas fixas / espera-se o equilíbrio, a simetria / e como se negasse a própria sina / aponta para o oposto dessa trilha”, até chegar ao uso das próprias armas do triunfante para enfim desqualificá-lo: “e a vida morre quando se dá conta / em matemática, tão certa, falha” (Idem, p. +13).
Fiel à sua vocação antirracionalista, a poesia matemática de Igor Fagundes contradiz-se a cada lance. O pior da arte contemporânea é manter uma concepção encontrada tanto no pior vanguardismo quanto no pior tradicionalismo: a crença em sua total suficiência e a consequente defesa da abominação do que lhe é diferente. Em Igor, tal ideologia separatista cede vez a uma sensata separação do vício e da virtude em um mesmo fenômeno. Daí ser rechaçada a febre numérica com que se quer a tudo maquinar, mas sem que disso se faça um exercício exclusivo de subtração: “amor à palavra que, em números, funda / bem mais que a medida: sua própria loucura”.
Ver na íntegra em: http://www.abralic.org.br/anais/cong2011/AnaisOnline/resumos/TC0758-1.pdf
 

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