três
no triângulo amoroso esqueça o
teorema:
jamais a soma dos quadrados dos
catetos
será o quadrado da rainha
hipotenusa
se em um casal a relação já tem
problemas
quem saberá de uma paixão em que
um terceiro
vértice entrega-se à disputa das
bermudas
também oscila em duelo e dúvida a
existência
onde a terceira via de outras é o
segredo
para uma vida que, de par em par,
não muda
como na orgia, em que o sucesso é
consequência
do número ímpar, a impedir que
dois parceiros
se colem, casem, melem – matem –
a suruba
me entrego ao gozo de viver além
de esquemas
sequer divido-me em metades ante
o espelho
uma terceira imagem, nele afim,
masturba-me
erótico é o três, me roça, me
desvenda
enquanto no meu duplo brocho,
insatisfeito
e tudo enruga: eu quero mesmo o que confunda
e tudo enruga: eu quero mesmo o que confunda
soneto da fugacidade
no impulso te possuo até que, dentro,
inflame o que nos infla enquanto entranho
e extreme-se em teu vão no qual me assanho
se me possuis quando és de mim o centro
quero vergar-me até que verta um estro
em cada lastro destes lábios grandes
em cujos brados líquidos comandes
a conversão de um falo gauche em destro
e assim, quando não mais erguido um muro
quem sabe, fusos, nos lacemos livres
quem sabe, fluidos, nos lancemos langues
o gozo vire estátua de algum Louvre
e finja-se imortal: o sêmen, sangue
deste amor, infinito enquanto duro
inflame o que nos infla enquanto entranho
e extreme-se em teu vão no qual me assanho
se me possuis quando és de mim o centro
quero vergar-me até que verta um estro
em cada lastro destes lábios grandes
em cujos brados líquidos comandes
a conversão de um falo gauche em destro
e assim, quando não mais erguido um muro
quem sabe, fusos, nos lacemos livres
quem sabe, fluidos, nos lancemos langues
o gozo vire estátua de algum Louvre
e finja-se imortal: o sêmen, sangue
deste amor, infinito enquanto duro
pequena morte
cerrar os olhos para ver o que
se passa quando a língua passa à
boca
de uma outra língua que, por
tara, avança
naquela que, devassa, ao beijo
lança-se
lembrando a dança, quando o
corpo, inteiro
integra um a um de seus sentidos
e houvesse neste espaço exíguo,
íntimo
a combustão do tato com algum
cheiro
sabor vermelho, a sussurrar no
ouvido
um tal sentido sexto, ou o hino
tímido
tinido nas salivas que se tocam
como se liras no arco das arcadas
dentárias, onde agudo e grave
roça
o timbre que as gengivas
esparramam
por baixo destas línguas tão
barítonas
que arranham a garganta ora soprana
e arrancam de um tenor-palato o
drama
de arremessar violinos rumo ao
céu
da boca e em cada bruma, o
violoncelo
a soçobrar, em chamas, um soluço
o hiato-nuvem onde um sol expulso
retorna sempre que os clarões
noturnos
entornam no beijar o acorde mudo:
tornado o lábio chave deste túnel
por onde a vida tenta gerar
frutos
e no tumulto se transmuda em
surtos
de um curso vário, cujo início é
o vulto
da viagem provisória ao fim do
mundo
Gosto muito de poemas eróticos e adorei "Três", posto que o triângulo amoroso com seu perigoso vórtice é um dos temas de meu interesse... Achei fascinante essa alusão à matemática, ao Triângulo das Bermudas ou a uma outra bermuda, sei lá...
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