A
matematização desmatematizante
Livro
de Igor Fagundes é uma manifestação de alta poesia
Marcos
Pasche
Professor, crítico literário
e doutorando em Literatura Brasileira - UFRJ
(Publicado originalmente como "A poesia do mais e menos"
em 25/08/10, no Caderno Ideias do Jornal do Brasil)
Talvez um título mais justo a este texto fosse “Nasce um grande poeta”, tal é a
profundidade do novo livro de Igor Fagundes, zero ponto zero. Se posto
ao lado da tendência mais comum na recente poesia brasileira, ele sobressairá
porque desfaz a falha polarização que segrega lirismo e cerebralismo (como se
um poema lírico fosse elaborado nos pés); se posto ao lado da tradição dos
poetas maiores, no Brasil e no Ocidente, ele achará um ambiente cativo porque
colhe, com engenho e emoção, o que é mais alardeado em nosso tempo para
desmerecer o objeto do alarde, fazendo-se dentro e fora da época; se posto
isolado, o percurso até aqui efetuado por sua obra dota-o de luz candente,
porque é imensa a qualidade que distingue este livro.
Um fator a dar maior solidez a zero ponto zero é a exibição de um
poeta senhor de sua voz, apesar das múltiplas falas. Confluindo o rigor da
técnica com a ausência de maiúsculas, a erudição com temas corriqueiros, Igor
Fagundes é tradicional sem ser tradicionalista; é moderno sem ser modernista
(já nas epígrafes, assinadas por Heráclito e Paulo Henriques Britto). Absurdo?
Sim e não. Trata-se de um poeta, e a manifestar em seu livro vigorosa captação
crítica da realidade numa forma de escrita originalíssima.
Diariamente nos é recomendado um modelo de vida sem o qual não se chega à
felicidade (sinônimo de empresariado ou alto cargo público). Faz-se crer que a
existência é passível de um encadeamento lógico dentro do qual as causas e os
efeitos têm infalível efetivação. Um exemplo caricato, por isso vivo, está no
filme Pequena Miss Sunshine, de Jonathan Dayton e Valerie Faris, no
qual Richard, pai da protagonista, conduz suas ações a partir do “método dos
nove passos”, na verdade nove mandamentos de auto-ajuda e/ou de gestão
empresarial. Ou seja, este é um tempo do furor contabilista, do apogeu do
número.
Em face disso, o livro de Igor Fagundes realiza, do início ao fim, um
expressivo exercício irônico, porque nele tudo obedece a uma rigorosa
disposição matemática: “ok, você venceu: há sim uma ordem / intrínseca ao
correr, vagar das páginas”, diz “plano cartesiano”. A maioria dos sessenta e
cinco textos é numerada de -31
a +31, tendo como eixo o “ponto zero”, o que subverte a
numeração convencional dos livros. O primeiro e o último texto evidenciam a
unidade circular da obra, visto serem identificados com o símbolo do infinito
(apondo-se ao primeiro o sinal negativo e ao primeiro, o positivo).
Apesar do corpo numérico, a razão de ser do livro é denunciar e rejeitar a
enganosa e danosa algebrização do viver, seja no âmbito específico do livro –
“de um livro quase todo em formas fixas / espera-se o equilíbrio, a simetria /
e como se negasse a própria sina / aponta para o oposto dessa trilha” –, no do
sujeito – “calculados de acertos / meus pecados: / erro-me assim / tão exato” –
e no da existência, em sentido mais amplo – “e a vida morre quando se dá conta
/ em matemática, tão certa, falha”.
Ao lado da ironia (aqui entendida em seu sentido original – “questionamento”),
destaca-se uma atividade metalinguística que por toda a extensão do livro reflete
acerca de sua natureza, sem nunca cair na gratuidade teórica. Na seção
“positiva” da peça (em que os textos recebem sinal de mais), os
poemas-algarismos de zero a nove têm como tema o próprio número que os indica.
E um aspecto da grandeza de zero ponto zero (ao lado de sua aguda
cosmovisão) é a extrema coesão de todos os seus fatores em todas as suas
partes; dessa forma, estes poemas não apenas falam sobre os números
intituladores. Cria-se com eles um pano de fundo para que o já dito torne-se
inédito, como nesta belíssima passagem de “dois”: “não à preguiça de pensar
dicotomias / como se tudo fosse antônimo e simplista // (...) sim ao limite em
que começa e não termina / a comunhão das coisas, gentes, como rimas //
sim ao casal, se o amor dos pares chega ao ímpar / ao singular plural e
ao filho em que culmina // sim ao que é não, se a partir dele, a vida afirma-se /
e em cada enjambement a morte em verso adia-se”.
Essa poética impactante, que se poderia classificar como “de peso”, quebra
sucessivamente qualquer aparência de maniqueísmo ou de monotonia. Mas
entre as investidas de envergadura teórica, presentifica a leveza de um amor
adolescente (o que se soma à negação da vida em aritmético regresso) no texto
“romântico”, esse termo de baixo calão para a poesia contemporânea: “curta seu love,
tire uma casquinha / amar é sair junto, ao cine e após / tomar um ice cream
numa pracinha / e nele derreter-se, ao sol, e a sós”.
Nasce, portanto, um grande poeta, furando o asfalto da hegemonia bancária e a
esterilidade da voga literária. Um poeta que entre céu e inferno, prefere o
zero, esse número vazio e repleto do eterno.
Parabéns, Igor Fagundes...
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