sábado, 3 de novembro de 2012

A MATEMATIZAÇÃO DESMATEMATIZENTE: Sobre o livro de poemas ZERO PONTO ZERO, de Igor Fagundes



A matematização desmatematizante
Livro de Igor Fagundes é uma manifestação de alta poesia

Marcos Pasche
Professor, crítico literário
e doutorando em Literatura Brasileira - UFRJ
(Publicado originalmente como "A poesia do mais e menos"
em 25/08/10, no Caderno Ideias do Jornal do Brasil)

            Talvez um título mais justo a este texto fosse “Nasce um grande poeta”, tal é a profundidade do novo livro de Igor Fagundes, zero ponto zero. Se posto ao lado da tendência mais comum na recente poesia brasileira, ele sobressairá porque desfaz a falha polarização que segrega lirismo e cerebralismo (como se um poema lírico fosse elaborado nos pés); se posto ao lado da tradição dos poetas maiores, no Brasil e no Ocidente, ele achará um ambiente cativo porque colhe, com engenho e emoção, o que é mais alardeado em nosso tempo para desmerecer o objeto do alarde, fazendo-se dentro e fora da época; se posto isolado, o percurso até aqui efetuado por sua obra dota-o de luz candente, porque é imensa a qualidade que distingue este livro.
           Um fator a dar maior solidez a zero ponto zero é a exibição de um poeta senhor de sua voz, apesar das múltiplas falas. Confluindo o rigor da técnica com a ausência de maiúsculas, a erudição com temas corriqueiros, Igor Fagundes é tradicional sem ser tradicionalista; é moderno sem ser modernista (já nas epígrafes, assinadas por Heráclito e Paulo Henriques Britto). Absurdo? Sim e não. Trata-se de um poeta, e a manifestar em seu livro vigorosa captação crítica da realidade numa forma de escrita originalíssima.
            Diariamente nos é recomendado um modelo de vida sem o qual não se chega à felicidade (sinônimo de empresariado ou alto cargo público). Faz-se crer que a existência é passível de um encadeamento lógico dentro do qual as causas e os efeitos têm infalível efetivação. Um exemplo caricato, por isso vivo, está no filme Pequena Miss Sunshine, de Jonathan Dayton e Valerie Faris, no qual Richard, pai da protagonista, conduz suas ações a partir do “método dos nove passos”, na verdade nove mandamentos de auto-ajuda e/ou de gestão empresarial. Ou seja, este é um tempo do furor contabilista, do apogeu do número.
            Em face disso, o livro de Igor Fagundes realiza, do início ao fim, um expressivo exercício irônico, porque nele tudo obedece a uma rigorosa disposição matemática: “ok, você venceu: há sim uma ordem / intrínseca ao correr, vagar das páginas”, diz “plano cartesiano”. A maioria dos sessenta e cinco textos é numerada de -31 a +31, tendo como eixo o “ponto zero”, o que subverte a numeração convencional dos livros. O primeiro e o último texto evidenciam a unidade circular da obra, visto serem identificados com o símbolo do infinito (apondo-se ao primeiro o sinal negativo e ao primeiro, o positivo).
            Apesar do corpo numérico, a razão de ser do livro é denunciar e rejeitar a enganosa e danosa algebrização do viver, seja no âmbito específico do livro – “de um livro quase todo em formas fixas / espera-se o equilíbrio, a simetria / e como se negasse a própria sina / aponta para o oposto dessa trilha” –, no do sujeito – “calculados de acertos / meus pecados: / erro-me assim / tão exato” – e no da existência, em sentido mais amplo – “e a vida morre quando se dá conta / em matemática, tão certa, falha”.   
            Ao lado da ironia (aqui entendida em seu sentido original – “questionamento”), destaca-se uma atividade metalinguística que por toda a extensão do livro reflete acerca de sua natureza, sem nunca cair na gratuidade teórica. Na seção “positiva” da peça (em que os textos recebem sinal de mais), os poemas-algarismos de zero a nove têm como tema o próprio número que os indica. E um aspecto da grandeza de zero ponto zero (ao lado de sua aguda cosmovisão) é a extrema coesão de todos os seus fatores em todas as suas partes; dessa forma, estes poemas não apenas falam sobre os números intituladores. Cria-se com eles um pano de fundo para que o já dito torne-se inédito, como nesta belíssima passagem de “dois”: “não à preguiça de pensar dicotomias / como se tudo fosse antônimo e simplista // (...) sim ao limite em que começa e não termina / a comunhão das coisas, gentes, como rimas //  sim ao casal, se o amor dos pares chega ao ímpar / ao singular plural e ao filho em que culmina // sim ao que é não, se a partir dele, a vida afirma-se / e em cada enjambement a morte em verso adia-se”.
            Essa poética impactante, que se poderia classificar como “de peso”, quebra sucessivamente qualquer aparência de maniqueísmo ou de monotonia. Mas entre as investidas de envergadura teórica, presentifica a leveza de um amor adolescente (o que se soma à negação da vida em aritmético regresso) no texto “romântico”, esse termo de baixo calão para a poesia contemporânea: “curta seu love, tire uma casquinha / amar é sair junto, ao cine e após / tomar um ice cream numa pracinha / e nele derreter-se, ao sol, e a sós”.
            Nasce, portanto, um grande poeta, furando o asfalto da hegemonia bancária e a esterilidade da voga literária. Um poeta que entre céu e inferno, prefere o zero, esse número vazio e repleto do eterno.

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