Publicado em 2010, meu livro de poemas zero ponto zero se constrói (e se desconstrói) a partir de uma tensão poética criada pelo universo da própria matemática, das proposições da Lógica, com o intuito, afinal, de flagrar os paradoxos, as sobras, os vãos de todo discurso que pretenda exato, claro e ordenado o real e o humano.
Neste sentido, subverto a numeração tradicional das páginas, instaurando uma página 0 no centro do livro. Seguindo para frente (perpassando as folhas da esquerda para a direita), vou gerando páginas +1, +2, +3, até a página + oo. Chego, inclusive, a tornar os próprios algarismos (0, 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9) os próprios temas e títulos dos poemas inscritos ou escritos nas páginas homônimas. Andando para trás, quer dizer, folheando o livro a partir da página 0, da direita para a esquerda) gero páginas - 1, -2, -3 até - oo (o que significa que o livro começa mesma na página -oo e termina na página + oo). No entanto, como tudo obedece a um rigoroso encadeamento, que trama, em verdade, sua própria implosão (ou explosão), a sequência dos poemas é pensada para as diversas orientações de leitura. O poema que abre o livro, o poema que o fecha, o poema da página zero, o poema na página + oo, o modo como cada texto emerge antes ou após do outro, tudo é pensado - de fato, é esse próprio gesto de pensar a "ordem" que gera a demanda de escrita de cada poema. No entanto, pela ironia que tange toda a obra, a todo momento estou questionando tais imperativos e conduzo o leitor a um afundamento naquilo mesmo em que já me veria afundado: no abismo, num labirinto.
Poema de abertura, "manual" seria irônico desde o título. Afinal, como explicar - dar as senhas de acesso - a um livro de poesia? Como antecipar a experiência poética através de um manual? Tornando ele também poema, isto é, condução para a desordem
MANUAL
primeiro cerre as pálpebras e
adentre
o escuro onde repousam coisas
táteis:
o verbo, por exemplo, consistente
com rosto oblíquo e olhar
indevassável
perfume afrodisíaco, respire-o
e pire na batata, e siga em
frente
na viagem com destino à maionese
quem sabe alcance a ascese, de
soslaio
depois tire os sapatos, imagine
pisar com pés descalços solo
fértil
talvez a rima aqui lhe soe um
tique
nervoso, quando quer, em suma, o
inverso:
o sumo da harmonia do que existe
os sons bem compassados do
universo
decerto que em palavra ecoa um
ritmo
convido-lhe a cantá-la no reverso
se o livro já começa do infinito
suponha que termine em ponto zero
surpreenda-se, na página, um
algarismo
é negativo e logo veja: não é
certo
que o fim seja no zero (o nulo, o
meio?
o centro de onde surge cada ponto
e o positivo encontra-se além
dele
– no jogo dos contrários fique
tonto)
caminhe para um lado e para um
outro
e chegue, nessa errância, ao uno, ao mesmo
esqueça o raciocínio, que dá rolo
ao perguntar de tudo a causa e o
efeito
o que vem antes, a galinha ou o
ovo
o zero ou o infinito – existe um
eixo?
como se fôssemos nas setas forças
centrípetas, centrífugas, qual
jeito?
o jeito é percorrer, correr
perigo
no curso em que o discurso em
labirinto
não tem começo, término, nem bula
eu mesmo na ilusão de dar-lhe a
súmula
de um livro e lhe roguei ser cego
a ver
lhe rogo agora uma surdez ao ler
o poema-guia, e brinque de
perder-se
nas retas – curvas – do
desentender-se
PLANO CARTESIANO
PLANO CARTESIANO
ok, você venceu: há sim uma ordem
intrínseca ao correr, vagar das
páginas
de modo que uma dor não me
incomode:
aquela em que o caótico
refrata-me
duvide, mas odeio matemática
e sei desordenado o humano mote
– embora assuma bela a face exata
alegra-me viver contraditório
se encaixo a vida em plano de Descartes
(na horizontal a vertical em
vértice)
não é por força da razão: por
arte?
suspeite sempre do prazer
estético
– Apolo fere-me no mito de Hades
enquanto o dionisíaco é mais
ético
FÓRMULA DE BÁSKARA
coubesse a trajetória na parábola
inscrita em gráficos, mediante
escalas
os dias seguiriam como um y
na busca pelo x e por um triz
as noites não despertam
programadas
coubesse a tarde dentro deste
achado:
no grau segundo da equação, em
báskara
na fórmula em que o delta é quase
a chave
retire-lhe a raiz pra mais, pro
menos
e o menos b eleve ao seu quadrado
por b com dupla vez divida o senso
coubesse o tempo em cálculo sem
lapso
jamais teríamos do amor um
déficit
um saldo devedor, mas superávit
da margem de erros somos grandes
mestres
pequena a porcentagem de milagres
que escrevem nunca em linha torta
o certo
como se em mãos de deus a régua e
o esquadro
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