domingo, 11 de novembro de 2012

A indagação existencial de Igor Fagundes - por Izacyl Guimarães Ferreira



A indagação existencial de Igor Fagundes

 

Izacyl Guimarães Ferreira [1]

 (Publicado originalmente no periódico Revista Brasileira, da Academia Brasileira de Letras)


No ano em que escrevo, 2010, Igor Fagundes é um poeta jovem, abaixo dos 30. Com formação em Comunicação Social, mestrado e doutorado em Poética, além de estudioso de Filosofia e Prática Teatral, tem três livros de poesia autorizada, após inúmeros prêmios e uma estreia quando adolescente, em 2000, que elevaria o número de publicações neste gênero para quatro, se ele mesmo não rejeitasse a primeira. A filosofia e a juventude são dados mais que anedóticos: episódicos – um, permanente; o outro, transitório – mas que no momento são relevantes para a abordagem de seus textos.

Logo que abertos, seus três livros mostram uma preocupação com as estruturas de uma poética de algum modo contestatória nos títulos ousados, corroboradas em seguida pelas divisões em partes, como a demonstrar seu domínio, quer do conteúdo, quer da forma, numa disposição quase didática dos temas.

O livro Sete mil tijolos e uma parede inacabada é sua estreia autorizada em 2004, pela Editora da Palavra. Na sequência, ganha em 2005 o IV Prêmio Literário Livraria Asabeça com o livro por uma gênese do horizonte, publicado no ano seguinte pela Scortecci Editora. Em 2010, a Editora Multifoco publica zero ponto zero, escrito durante poucos meses de 2007.

Os dados extra-poemas podem parecer supérfluos para o leitor, mas não serão para o crítico ou comentador, pois exibem a vivência do poeta, configuram sua personalidade voltada para a arte e o pensamento e, no caso em questão, ajudam a entender alguns traços importantes de sua obra. Em Igor Fagundes, esta formação e as versáteis experiências dão a ver uma procura de meios expressivos e mais: uma procura de significação do mundo.

Fiquemos, por ora, na forma, e não por acaso. Como se verá, a forma, nesta poesia rigorosa, sem aprisionar o pensamento, delineia na contenção do(s) verso(s) toda a especulação de um poeta em pleno controle e juízo de seu verbo.

Igor Fagundes domina o ritmo e sua metaforização é dinâmica. É mesmo vibrante e surpreende pela variedade e pela riqueza vocabular, considerando-se sobretudo a juventude do autor e pondo à mostra concentração e maturidade raras até em poetas mais vividos.

Outro dado prévio é o das epígrafes, nunca inúteis, pois em geral preludiam o teor da obra, senão a motivação, alguma referência essencial ou amparo elucidativo.

Se no primeiro livro há ainda palavras com iniciais maiúsculas, a partir do segundo elas são abandonadas em favor da grafia igualitária das minúsculas e da quase ausência de pontuação, algo à maneira de certas vanguardas e tão marcante no americano e.e.cummings. Creio que tal tendência – muito do século XX, embora lhe seja anterior e algo gasta após Mallarmé, assim como as maiúsculas abrindo os versos todos, tão ao gosto dos românticos, parnasianos e simbolistas – poderá ser abandonada em benefício da leitura, digamos, “normal”. Pois o recurso à multiplicidade da leitura, sua riqueza e ambiguidade, permitidas pela ausência de pontuação e pelo uso de minúsculas pareceria prática apenas acessória à fruição do texto. Mas isso, podendo parecer trivial ou secundário, em Igor Fagundes é parte de uma poética aberta, consciente e ciente do seu papel a desempenhar: contrapor-se à dicção tradicional sem perder o diálogo com ela, pois o que tem a dizer requer uma independência, se mantido o essencial do dizer poético: ritmo, oposição à racionalidade da prosa, inventividade de linguagem e imagética. Por certo, isso será dito sem demérito algum para o autor. Ao contrário. Porque, podendo tratar-se de característica de época, mais que de estilo pessoal, tem neste poeta outra e mais alta função: a de ter para um “assunto” novo – ou para um tratamento novo de assunto – uma “forma” nova, dando curso igualmente novo à totalidade da dicção.

Mas abordemos esta poesia por outros e mais amplos aspectos. A obra de Igor Fagundes não é uma aventura. Em poucos anos, já mereceu o reconhecimento de leitores gabaritados, poetas como ele – do metiê, portanto –, tão capazes ou mais que os críticos de ofício para penetrar a gênese dos textos e, se experientes, como é o caso de alguns, distinguir originalidades, informação adquirida, leituras absorvidas, inserção na cultura.

O próprio poeta admite o tônus filosófico de seus poemas. A imersão em Heráclito, visível desde as epígrafes, e em Martin Heidegger, intérprete do pensamento grego, está à mostra em citações, referências e insinuações. Mas o estudioso de Filosofia vai além da indagação socrática, base universal do pensamento do ocidente, da magia pré-socrática tão perceptível numa estética do fragmento, para enveredar na procura contemporânea de sentidos nas artes e na vida diária. E, se tal procura é “séria” em grande parte dos textos, por vezes adere no terceiro livro à ironia e até a uma desabrida galhofa.

De todo modo, sofrido e sério, ou irônico, ou só banhado de humor drummondiano eventualmente, seus textos já estão libertos de qualquer epigonismo, parecendo ultrapassada sua fase de aprendizado. Embora mostrem origens e leituras, como todo poeta bem alimentado, os livros de Igor Fagundes se sustentam eretos e sós.

O poeta e crítico Antonio Carlos Secchin, da Academia Brasileira de Letras (ABL), diz ver em Igor Fagundes uma das maiores “inteligências poéticas” de nossa literatura contemporânea e esse juízo crítico vem acompanhado de numerosos outros aplausos, muito merecidos, embora sejam poucos, além dos prefácios, os estudos de sua poética.

O entusiasmo dessa crítica tem a ver com aspectos fundamentais do poeta e penetra o âmago do conteúdo dos textos, embora sem análise mais minuciosa da feitura destes, como faria um Amado Alonso, por exemplo, quando exorcizou os demônios da criação de Pablo Neruda. Foram já reconhecidas sua sabedoria formal e técnica, bem como sua imagética exuberante. Caberá lermos, aqui, alguns versos, antes de salientarmos o que vê a crítica e de tentarmos situar o pensamento e a estética deste fascinante verse maker, dir-se-ia de seu bem lido Ezra Pound.

A educação pela parede quer-se exata:
cada tijolo é uma escolha e uma alquimia.
Na casa o espaço imita a pedra cabralina
em dura guerra contra a dor que entranha a sala.
...................................................................

No aprendizado do concreto no abstrato,
além de muros pelas folhas e objetos,
outro se oferta, grita em nós, aqui se cala:
por dentro, eterna, uma parede nos amarra.

Em outro poema:

E a parede, que era antes símbolo 
do que em nós se mantém erguido,
acaba signo do que divide os corpos
em rumos de deus e do diabo.

Parede que une e divide, multiplica e esconde. E limita. E defende. E revela. Como a cebola: “por cima da pele/ outra pele/ por baixo / mil cascas/ na casca / que desvenda / a cebola / esta máscara / de quem a desvela // é a cebola o poema / esta tensa nudez / nunca nua”. Lemos ainda: “Poesia // é quando a folha engravida.” E, entre João Cabral e Chico Buarque, Drummond e uma lista de poetas lidos, todos citados no poema “Herança”, a pergunta: “em que estante/ ficou perdida minha vida?”.

Consciência de forma e criatividade linguística, além de diálogo intertextual, viu Secchin onde o poeta e ensaísta Marco Lucchesi enxergou também “uma estranha alegria de viver”. Foi sem dúvida uma estreia madura; de maturidade precoce, viram todos os seus críticos. Porém, se este primeiro livro jamais esconde filiações e perplexidades, se já revela o bom domínio formal e usa ainda as maiúsculas, é estreia, forte, mas não reveladora da explosão artística a vir no segundo livro, por uma gênese do horizonte, onde a estruturação é mais sólida; onde há menos experimentações e aparece de vez (por ora) o estilo dominante de oferecer leituras múltiplas na escassa pontuação, com o emprego quase estrito das minúsculas, com os recursos expressivos provenientes da filosofia e com os parênteses propondo ora dúbios e obscuros, ora mais claros os significados.

Toda grande poesia é exigente e a de Igor Fagundes é ainda particularmente instigante e capaz de perturbar mentes cartesianas, embora sua aficção pelo pensamento subjacente – quando não explícito – não facilite a leitura desavisada. Não se trata do velho hermetismo, pois o poeta se vê com lucidez e, quer quando em fala direta, quer quando – “cebola” – se desdobra em imagens ou em alusões, não tem a intenção de esconder-se, mas de revelar-se melhor. E esse inescapável teor “filosófico”, isto é, pensante, perscrutador de sentidos, não turva a linhagem do gênero. O que faz é sempre poesia, mesmo quando aqui e ali pareça anedótica – nas acepções de factual e até de humor. Mesmo quando o miolo do poema se tinge da tal indagação de cunho “filosófico”.

Ao sabermos que o poeta tem intimidade com a filosofia não podemos deixar de ler os poemas sem vermos um pensamento questionador e debatedor nos versos. Exigência da alta poesia, tal atitude limita o espectro de seus leitores, pois creio, na eventual popularidade de sua obra, em uma poesia para poetas e/ou leitores cultos, senão acostumados com a vertente cerebral à qual esta pertence. Algo de zero ponto zero:

ok, você venceu: há, sim, uma ordem
intrínseca ao correr, vagar das páginas
de modo que uma dor não me incomode:
aquela em que o caótico refrata-me

............................................................

se encaixo a vida em plano de Descartes
(na horizontal a vertical em vértice)
não é por força da razão: por arte?

suspeite sempre do prazer estético:
Apolo fere-me no mito de Hades
enquanto o dionisíaco é mais ético

No poema seguinte:

coubesse a trajetória na parábola
inscrita em gráficos, mediante escalas
os dias seguiriam como um y
na busca por um x e por um triz
as noites não despertam programadas

Leia-se, ainda, o poema “zero ponto” e “ponto zero”, ambos compondo o título do livro, zero ponto zero, para ver-se o tom constante de pensamento pesquisador (pensa-se por vezes em Fernando Pessoa). Em Igor Fagundes, a poesia nunca é trivial, jogo floral, sequer quando brinca, e o faz bastante. Tudo nele procura sentidos, demonstrações, desdobramentos.

No segundo livro, por uma gênese do horizonte, o poema final é quase uma poética, seguida de perto ao longo de sua poesia. Após enumerar tarefas de domadores, trapezistas, mágicos e outros artistas de espetáculos, “no circo-poema onde se espraia a travessia”, conclui:

– por esses o escrever não se assemelha a dardos
e à margem do funesto dança em euforia
o artista gêmeo do que em vida sempre vibra

O poema se chama “criação” e em muitos aspectos de construção e linguagem ilustra essa poética de risco e de invenção, carregada de signos, exigente quando deixa de lado o humour e navega por águas afluentes do pensamento quase abstrato, se não estivesse já concretizado pela palavra poética.

A construção deste segundo livro tem rigores de arquitetura ou de engenharia, com as idas e vindas de temas e auto-citações, abrindo com um poema a aludir ao título e girando em torno de afogados, como se o horizonte (interpreto eu) fosse o limite ou a esperança num mar absurdo ou inóspito de naufrágios. “Mistérios do horizonte”, diz bem o prefaciador, Latuf Isaias Mucci, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), ao falar dos “poemas abissais” frente à “possível miragem”, dedicada “aos que, afogados no amor, salvam vidas”.

Se vou e volto de um livro a outro é porque os três estão ligados pelo que chamei de poética de risco. Igor Fagundes não teme os riscos de eventuais obscuridades, creio eu que por crer nas virtualidades elucidadoras de seus versos, esperando que o acostumar-se com a linguagem ora cifrada, ora quase prosaica de sua criação, conquiste o leitor. Lançado nos labirintos das imagens numa sintaxe clara, numa dicção precisa e contundente, o leitor, atento, não se perde, mesmo quando, aqui e ali, o que entende possa ser distinto do que terá intencionado o autor. Graças à magia de seu verbo, mais apurada a cada livro, até enfrentar as dificuldades e as romper, tal como se verá no último poema de zero ponto zero, “sobre o ponteiro a âncora”.

A filosofia e a matemática são parte visceral de seu afazer poético no livro zero ponto zero. Escreve em “pele dural”:

nunca me constrangeu a matemática
de uns tempos para cá, tem-me ofendido

com uma clareza estranha ao meu compasso
sem centros não desenha nem um círculo

constrange-me essa forma sem matéria:
os números não sei pelos sentidos

quando penso no vinho, qual molécula
(não) vem à língua? só o sabor do (ins)tinto

Mais adiante, no mesmo poema:

esta arte exata me maltrata os óculos
............................................................
o cálculo desponta e me desaba
e a vida morre quando se dá conta
em matemática, tão certa, falha

E encerra com riso:

se periódica, a propor a dízima
seu filho feio, aberração mais nítida

quando de si a operação for vítima
do erro de meu caro anestesista

Não será exagero dizer que Igor Fagundes trabalha com intenções de totalidades de temas e de
linguagem. Pensamento e música, sentido e som se buscam, como ocorre em toda alta poesia. Se há, e há obscuridades em Igor Fagundes, não é porque não saiba ser claro. Ele sabe. É porque sua poesia navega por águas agitadas, uma agitação de procura de interpretação do mundo e de cristalização de uma dicção em processo, como se espera de um poeta de peso, jamais pronto e perfeito como um círculo.

Em depoimento, Igor cita Aristóteles ao dizer que a filosofia e a poesia nascem do espanto. Lembra e vê também a noção de criação – de poiesis – em seu sentido amplo, como a transmutação da própria physis. Tal abordagem deste “herdeiro de Alberto Caeiro” explica o transitar de uma a outra forma de ver e narrar o mundo, cara e coroa da moeda da linguagem, “negando por afirmação e afirmando por negação”, numa dialética vital. Lembremos: “poetare deinde filosofare”...

Nessa dialética posta a nu diante de nós, o poeta vem de uma contenção formal a balizar todos
os poemas (ou quase) até o rompimento das paredes, até o mergulho no oceano dos afogamentos e naufrágios. Como se o verso fosse pouco – algo assim, como já nos disse Augusto dos Anjos batalhando “contra o mulambo da língua paralítica” –, com a ressalva: em Igor Fagundes nada vai no rumo da paralisia. Há sempre movimento no labirinto do minotauro, à mostra na capa de zero ponto zero: “o jeito é percorrer, correr perigo / no curso em que o discurso em labirinto / não tem começo, término nem bula / eu mesmo na ilusão de dar-lhe a súmula”.

Tanto é assim, e disso tem plena consciência o poeta, que o livro terminará com um poema aberto e esfacelado, algo à maneira da constelação mallarmaica, uma vez rompidas as paredes do verso.

Lucidez na tormenta nos exibe uma poesia do pensamento, entre a busca (e renúncia concomitante) de equações (de álgebra e filosofia) explanadoras e a beleza da exposição do mundo pela poesia. Não por acaso, a forma de Igor Fagundes varia e há os fragmentos dos aforismos aqui e ali, ao lado ou junto, ou contra a formatação impositiva do verso. Pensamento pensando-se, observação observando-se, jogo de espelhos. Uma compulsão de aclarar-se, dar voltas em torno para cristalizar a indagação no verso, gaiola aberta para o pássaro pensador, utilizando a formatação e o ritmo da poesia para aprisionar a indagação, conter o fluxo especulativo.

Mas atenção: Igor Fagundes resiste à tida como fria especulação filosófica (mas será mesmo fria? Como ver frieza em Nietzsche, Heidegger ou Unamuno?) e se aquece no calor da poesia: uma poesia cheia de vida observada e usufruída, jamais estática, pensando-se, e sentindo-se, e fazendo-se ao sol de um meio-dia vigoroso, com aquela “lucidez do sobressalto” construtor de João Cabral.

O poeta sabe: filosofar é perguntar. O poeta sabe: poetar é dizer. E o poeta demiurgo vai

               rumo ao lugar em que tudo é barco
                                            ao redor de si
                                    a girar                        
                         sobre as curvas               
             de um imenso relógio


[1] Poeta, ensaísta, crítico literário e detentor de diversos prêmios de literatura.

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