sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Para uma sexyta-feira, três poemas eróticos de meu livro zero ponto zero. E eu começo pelo próprio número "três", na alegria trágica de Eros quando e porquanto poético, ontológico.



três

no triângulo amoroso esqueça o teorema:
jamais a soma dos quadrados dos catetos
será o quadrado da rainha hipotenusa

se em um casal a relação já tem problemas
quem saberá de uma paixão em que um terceiro
vértice entrega-se à disputa das bermudas

também oscila em duelo e dúvida a existência
onde a terceira via de outras é o segredo
para uma vida que, de par em par, não muda

como na orgia, em que o sucesso é consequência
do número ímpar, a impedir que dois parceiros
se colem, casem, melem – matem – a suruba

me entrego ao gozo de viver além de esquemas
sequer divido-me em metades ante o espelho
uma terceira imagem, nele afim, masturba-me

erótico é o três, me roça, me desvenda
enquanto no meu duplo brocho, insatisfeito 
e tudo enruga: eu quero mesmo o que confunda



soneto da fugacidade



no impulso te possuo até que, dentro,
inflame o que nos infla enquanto entranho
e extreme-se em teu vão no qual me assanho
se me possuis quando és de mim o centro

quero vergar-me até que verta um estro
em cada lastro destes lábios grandes
em cujos brados líquidos comandes
a conversão de um falo gauche em destro

e assim, quando não mais erguido um muro
quem sabe, fusos, nos lacemos livres
quem sabe, fluidos, nos lancemos langues

o gozo vire estátua de algum Louvre
e finja-se imortal: o sêmen, sangue
deste amor, infinito enquanto duro




pequena morte




cerrar os olhos para ver o que
se passa quando a língua passa à boca
de uma outra língua que, por tara, avança
naquela que, devassa, ao beijo lança-se
lembrando a dança, quando o corpo, inteiro
integra um a um de seus sentidos
e houvesse neste espaço exíguo, íntimo
a combustão do tato com algum cheiro
sabor vermelho, a sussurrar no ouvido
um tal sentido sexto, ou o hino tímido
tinido nas salivas que se tocam
como se liras no arco das arcadas
dentárias, onde agudo e grave roça
o timbre que as gengivas esparramam
por baixo destas línguas tão barítonas
que arranham a garganta ora soprana
e arrancam de um tenor-palato o drama
de arremessar violinos rumo ao céu
da boca e em cada bruma, o violoncelo
a soçobrar, em chamas, um soluço
o hiato-nuvem onde um sol expulso
retorna sempre que os clarões noturnos
entornam no beijar o acorde mudo:
tornado o lábio chave deste túnel
por onde a vida tenta gerar frutos
e no tumulto se transmuda em surtos
de um curso vário, cujo início é o vulto
da viagem provisória ao fim do mundo

Um comentário:

  1. Gosto muito de poemas eróticos e adorei "Três", posto que o triângulo amoroso com seu perigoso vórtice é um dos temas de meu interesse... Achei fascinante essa alusão à matemática, ao Triângulo das Bermudas ou a uma outra bermuda, sei lá...

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